A Construção do Sentido Tendo em Vista a Possibilidade de Outro

 

Artur Júnior dos Santos Lopes

Quando percebo que em função do outro é que me justifico, e também o outro só pode ter existência em mim, envisto-me de uma grande responsabilidade. Se esta relação bitransitiva, insolúvel, complexa existe e quando percebo que outro está além de minha própria consciência encorporando ai também o meio ambiente, afinal, outro é tudo o que me cerca e que não sou eu, e que em função disso por vezes me aflige, me agride, me traz a consciência que não sou único e que não estou isolado, e me diz ainda mais, que estou num mundo, num universo, que estou compreendido em algo que é maior do que eu. Estes outros, também tem formas de expressar sua repulsa as minhas atitudes, de me alertar de que o caminho que sigo não é o mais apropriado. Me mostra que ao envenená-lo, enveneno a mim também, que ao reduzi-lo, também me reduzo, que ao matá-lo me suicido.
Percebo isto lógica, sensível e espiritualmente. Daí além de uma dimensão muito diferente, a vida tem um sentido, tem responsabilidade muito maior, principalmente quando percebo que o contexto em que me encontro não é o que mais me interessar, e que tenho o dever de interagir de forma a conduzi-lo de forma coerente com o meu pensamento e se isso não for possível, ao menos tentá-lo.

O outro é o meu filho, é a minha mãe, é o meu irmão, é a minha esposa. Pela construção do período podemos perceber que o outro é aquele que de alguma forma se relaciona comigo. A definição demonstra uma complexidade muito maior do que estamos acostumados a usar. Outro também é o meio ambiente, é quem me antagoniza. Outro é tudo o que não sou eu, mas que de alguma forma se relaciona comigo. É interessante perceber que o outro depende de mim. Pois se eu não existisse ele não seria o outro em função de mim.

O encontro com o outro pressupõe uma atitude de abertura em relação as minhas convicções, meus sentimentos, meus desejos e minhas ações. Postura essa que não vise anular o outro, ou reduzi-lo a mero espectador.
O encontro com o outro não se dá quando andamos em paralelo, pois se assim fosse estaria a me olhar no espelho e por isso a reconhecer um reflexo de mim ou a me identificar como reflexo de alguém que não sou eu em um espelho.
Por isso é importante ser indivíduo mas não deixar com que a individualidade impeça a manifestação do que é alheio em mim, e saber que a valorização dos envolvidos, a qualidade do encontro, tudo isso acrescenta, sobre maneira em mim mesmo.

A Ética não pode estar dissociada da racionalidade, assim como também não pode separar-se dos sentidos, dos sentimentos, da política, pois que tudo isso é manifestação que precisa ser analisada sobre a ótica da ética enquanto ciência.
A racionalidade pura já demonstrou não ser suficiente para a propositura ética. Também a ausência da racionalidade não é o melhor caminho por levar ao fundamentalismo que acaba sendo inóspito.
Parece que o equilíbrio, a sobriedade, a concepção de que o outro ocupa um lugar tão importante quanto eu, e neste sentido o racionalismo se faz importante, pois apartir dele consigo logicamente equacionar esta situação, são chaves para construção de um contexto que queremos perpetue nossa espécie, nosso planeta.
A composição de uma ideologia que possa traduzir este desejo parece que ainda está por brotar, pois que já está embrionada. Cabe-nos direcionar, agora, seus rumos, se é que isto é possível. Devemos trabalhar na construção de um mundo não apenas humanizado, mas um mundo mais humano, um mundo que se possa pensar em continuar construindo, que se possa continuar nele vivendo.


Porto Alegre, 16 de Setembro de 2005

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