Introdução à submissão

Artur Júnior dos Santos Lopes

INTRODUÇÃO
A submissão é algo que me perturba, a ponto de me causar a pretensão de fazer um trabalho que a contemple de forma genealógica. Dada a impossibilidade de realizar esta empresa de um única vez, preferi neste momento abordar as raízes da submissão. Foi muito difícil abrir mão de contribuições valiozissimas como as de Gramsci e a transcendência do panorama meramente economicista e estativista, da professora Eunice Ribeiro Durham e a observação profunda do estabelecimento das relações sociais entre os primatas; Jaime Betts e a diferença entre o que e o humano e o que é humanizar, Daniel Kupermann e a sua Institucionalização do Mau Humor. Queria o ótimo, a profundidade incompleta e inacabável.
Mas, sob outro aspecto, fazia-se necessário um produto, uma obra, um trabalho. Precisava evitar o ótimo, mesmo que meu intento ficasse prejudicado. Tinha que concluir se não um bom trabalho, ao menos um que fosse aceitável.
Então: Onde começa a submissão? O ideal é que pudéssemos voltar a era primitiva e verificar como se dava o relacionamento do ser humano. Como era a sociedade? Como se agrupavam? Como negociavam o poder?. Infelizmente isso não e possível. Talvez no futuro se disponibilizem as viagens no tempo. Hoje, teremos de trabalhar com aproximações. Aproximações, estas, difíceis de quantificar, carregadas de intencionalidades diversas. O problema persiste. Como conseguir uma maior aproximação da realidade? Busquei a solução provisória na Etologia de Konrad Lorenz.
Preferi utilizar uma aproximação entre os primatas. Os Chimpanzés que tem semelhança genética conosco de noventa e nove por cento, foram a minha escolha. Suas organizações sociais me chamaram a atenção e vislumbrei, se não a possibilidade de responder como se dá a submissão humana, ao menos levantar questões de como se estabelecem as relações entre os primatas e daí trazer questões para aquele universo. Após isso, um esforço para verificar se estas estruturas são comparáveis as dos seres humanos.
Este trabalho está longe de estar finalizado. É um primeiro passo sobre um terreno extenso. Que se não permite uma melhor compreensão de onde a submissão planta as raízes na humanidade, ao menos vai me permitir compreender-me melhor. Saber onde em mim reside toda a submissão ao sistema e a estruturas opressoras, perversas, que fazem do ser humano, este ser dicotômico, idealizado com maior capacidade, mas o que dada a sua contraditoriedade radical faz de sua passagem sobre este planeta um terrível mal.

 
1 PRÁ COMEÇO DE CONVERSA
Na introdução que Marilena Chaui faz do texto de Paul Lafargue: O Direito a preguiça, ela fala do pasmo que os europeus tiveram ao encontrar os indios. Isso se deveu ao conceito que tinham de que a preguiça era a mãe de todos os vícios. Em seu mundo posto, onde eles conheciam todas as respostas de forma imutável. A única possibilidade era a sua visão. Daí tudo o que não se submetesse a esta forma de compreender precisava ser humanizado.
Busquei esta citação para ilustrar que o que vemos, por menos que queiramos, está empregnado de nós mesmos. Esta subjetividade do ver nos impede de chegarmos a “realidade”. Quando desfocamos o nosso olhar, ou utilizamos um outro objeto para buscar a aproximação do objeto primeiro, podemos ter uma riqueza maior.
Nossa visão sobre nós mesmos está impregnada de conceitos, no caso da sociedade ocidental: judaico-cristãos, das leis de cientificidade cartesiana moderna; de modo que: o olhar sobre nós mesmos e principalmente de nossa história, e pré-história tem uma carga muito grande de idealização.
Creio que os padrões e classificações que utilizamos para determinado objeto se distinguem em outros, mesmo que os objetos sejam muito semelhantes. Neste caso, quando escolho os chimpanzés para meu trabalho, o faço na tentativa de não utilizar as mesma classificações que temos sobre os homens para eles. Creio que vai parecer mais aceitável, para um público maior. E desta forma as relações, que pretendo, e que no futuro serão feitas em direção aos seres humanos, ficam facilitadas.
De qualquer forma podemos perceber questionamentos sobre a submissão, em Lafargue por exemplo: Quando honestus e honetiores deixaram de ser homens livres para serem os homens que pagam suas contas? Também em La Boétie no Discurso da Servidão Voluntária: “Como os homens, nascidos livres, podem viver em servidão como se esta lhes fosse natural?” (LAFARGUE, p. 29). Também Lafargue pergunta: “Como o proletariado, a única classe que possui a chave para a liberar a humanidade, pode deixar-se dominar pelo dogma do trabalho?” (LAFARGUE, p. 29).
Estas questões estão impregnadas de idealizações humanas, mas, de uma forma radical as perguntas me interessam. O que é submissão? Onde reside a submissão? Onde a submissão estabelece suas relações fundantes?

1.1 O Despretensioso Chimpanzé
Como já se falou os chimpanzés apresentam noventa e nove por cento de semelhança genética com o ser humano, apesar disso, o senso comum vê-o apenas como um macaco, um animal, daí a facilidade de percebemos algumas características especificas do comportamento do animal.
No que se refere a composição física, tamanho e forma mais especificamente, não existe grande diferença entre macho e fêmea. A gravidez dura oito meses, os filhotes precisam de cuidados até os cinco anos de vida e os animais tem uma estimativa de vida de até quarenta anos. Podem adotar a posição bípede para carregar peso ou quando estão com as mãos machucadas, mas preferem ficar apoiados sobre os quatro pés para conforto da coluna cervical.
Sua alimentação está baseada na coleta de frutas, insetos como formigas e cupins. A alimentação que mais atrai estes animais é a obtida através da caça, que pode ser desde pequenos animais até chimpanzés de outros grupos, geralmente destroçados e divididos entre os caçadores, filhotes e fêmeas tendo critérios hierárquicos e da preferencia sexual.
O ritual de divisão da caça reúne os chimpanzés em grandes grupos, por períodos mais prolongados do que qualquer outra atividade social. Essas ocasiões servem também para estreitar as interações sociais entre os membros do grupo. Quando um macho monopoliza a presa e não a divide com os outros, o grupo tende a mantê-lo fora da divisão em caçadas futuras. Divisão da carne de forma ritual é outra característica comum com os humanos.
Como os seres humanos os chimpanzés também conseguem reconhecer o reflexo no espelho. Também matam premeditadamente seus semelhantes. Capacidades exclusivas destes animais!
Consegue aprender a linguagem dos surdos, resolve problemas com uma lógica de causa e efeito e na leitura da experiência:
na literatura de “experiência do ahá!”. Essa experiência pode ser demonstrada quando o observador pendura uma fruta no teto, fora do alcance do chimpanzé, e espalha no chão algumas caixas e um cabo de vassoura. Depois de olhar detidamente para a fruta e para os objetos colocados à disposição, o chimpanzé empilha as caixas e com o cabo de vassoura derruba a fruta. (VARELLA, a)

1.2 A Estrutura Social do Despretensioso Chimpanzé
Os grupos de chimpanzés se alternam em número dependendo do interesse por alimentação e proteção. Quando a comida é farta ou as ameaças do meio aumentam os grupos também aumentam. O contrario acontece respeitando a lógica da escassez de alimento ou segurança no ambiente. Desta maneira os grupos variam em sociedades de setenta a dez animais, dependendo das condições do ambiente. Também interferem no agrupamento a receptividade sexual das fêmeas. Quanto maior a quantidade de fêmeas em período fértil, maior o grupo.
1.2.1 Os machos
O maior interesse do macho desta espécie é “uma posição social que lhes garanta um maior acesso as fêmeas” (VARELA, a). O maior privilégio sobre as fêmeas se dá ao macho alfa. Esta posição não está baseada apenas na força física do animal, mas na sua capacidade de estabelecer alianças poderosas. Logo existe grande agressividade na disputa pela dominância do grupo.
A estratégia para depor o dominante se baseia na capacidade do oponente em recrutar um grupo mais forte e manter o seu apoio. Para formar este grupo o oponente irá fazer concessões aos demais. Vai ser generoso na distribuição de carne, vai garantir acesso as fêmeas.
Existe uma complexidade hierárquica nesta sociedade e que foi objeto do livro: "Chimpanzee Politics" de Frans De Wall. Segue uma síntese superficial: O macho alfa está no topo, seguido pelo beta e o gama. Depois vem os seus associados e por fim os subordinados e contrários. A distribuição de sexo e alimento está diretamente ligada a esta hierarquia.
Jane Goodall percebeu também o ataque premeditado que ocorre de bandos a machos de grupos diferentes que estejam distantes de seus grupos. Estes assaltos geralmente culminam com a morte do animal agredido. E demonstram a intolerância e a capacidade de matar premeditadamente.
1.2.2 As Fêmeas
As diferenças de gênero começam a aparecer apenas na adolescência, quando as fêmeas deixam o isolamento para a alimentação em especial a distribuição de carne.
A relacionamento com a mãe vai se deteriorando e a fêmea jovem acaba se desgarrando do grupo natal. Assim a fêmea ingressa em um novo grupo e apartir daí fica submetida aos machos do novo grupo. Esta submissão se dá pela força pois é comum os machos espancarem as fêmeas. O auge da violência contra fêmea normalmente também se volta para os filhotes, fazendo com que haja um alto índice de infanticídio nestas comunidades.
As fêmeas estabelecem associações com outras fêmeas apenas em cativeiro. Esta poderia ser uma forma de evitar a violência dos machos e consequentemente a proteção dos filhotes, mas na natureza este processo não é verificado. As fêmeas preferem ficar isoladas, cuidando dos filhotes e se alimentando.
Jane Goodall, demonstrou uma sutil hierarquia entre as fêmeas, baseada na segurança que o macho que ela seduziu lhe dá. Esta estrutura permite verificar quatro vantagens básicas para a fêmea em mais alta posição.
1) Vivem mais tempo do que as subalternas;
2) Seus filhos têm maior probabilidade de sobreviver;
3) Em média, produzem mais filhos que atingem cinco anos de idade e se tornam independentes da amamentação;
4) Suas filhas atingem a maioridade sexual mais cedo: até quatro anos antes do que as filhas das fêmeas de baixo ranking.
A disputa por uma posição privilegiada na hierarquia, a submissão à força bruta do macho e o infanticídio criam na fêmea uma necessidade vital de proteção masculina. Quanto mais poderoso e protetor o macho que ela puder seduzir, maior a probabilidade de sobrevivência dos filhos, que herdarão as características da mãe e do pai dominador, brutal, perpetuando o comportamento.

 
CONCLUSÃO
Pude perceber algumas formas básicas e motivacionais pelas quais os chimpanzés se submetem. Parece claro que outras podem ser destacadas, mas as que pude evidenciar neste momento são as que seguem em ordem de importância.
2 INTERESSE

2.1 Para o macho
Para o macho o maior interesse parece ser o da dominância. Ser o chefe. Chegar a posição que lhe possibilite ordenar o grupo é a sua maior batalha. Cheguei a pensar que isso se devesse a satisfação de interesses próprios como saciar o apetite sexual, ou o acesso a alimentação, mas isso ainda não ficou claro. Então fica ainda a pergunta: Por que estar na posição hierárquica mais alta do grupo?
O macho busca a dominância para ter maior direito sobre as fêmeas sexualmente receptivas. Uma vez sendo o alfa, está no direito de receber os favores sexuais das fêmeas. Se apenas desfrutar da sexualidade, não se manterá por muito tempo, sendo alfa, pois outros ficarão insatisfeitos e procurarão destitui-lo. Desta forma abre mão do seu direito em favor dos outros a fim de permanecer na sua posição hierárquica.

2.2 Para a fêmea
A preocupação maior da fêmea é garantir a sua sobrevivência e a de seus filhotes. Desta forma procura seduzir o macho que esteja na posição hierárquica mais favorecida. Parece ser compreensível este posicionamento uma vez que os relacionamentos estão permeados por uma grande quantidade de agressividade.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Consegui, neste momento, chegar a alguma conclusão, embora muito superficial, do que seja a submissão entre os chimpanzés. Mas já me serve de ponto de partida para a sua comparação em próxima oportunidade para com a submissão humana.

 
BIBLIOGRAFIA
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Porto Alegre, 03 de Dezembro de 2005

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