Critica de Kant a Hume

Artur Júnior dos Santos Lopes

INTRODUÇÃO
Neste trabalho apresentei uma pequena biografia de Kant e procurei mostrar de forma sucinta como Kant e Hume se posicionam quanto a teoria do conhecimento.
Este trabalho não pretende ser definitivo no que se refere as críticas tecidas por Kant a Hume, mas tenta trazer uma forma possível de interpretar e comparar as diferentes formas que podemos nos posicionar sobre o extenso assunto que é a teoria do conhecimento.
Muito Obrigado!

 
1 INFORMAÇÕES BIOGRÁFICAS
Kant nasceu em Königsberg, Prússia, a 22 de Abril de 1724. Faleceu em 12 de Fevereiro de 1804 aos 80 anos na mesma cidade, de onde pouco saiu. Foi um filósofo representante do Iluminismo, influenciou diretamente os pensamentos de Hegel. É creditada a Kant a tarefa, de nível epistemológico, de síntese entre o Racionalismo de Descartes, Leibniz e o empirismo de Hume, Locke e Berkeley. Kant era de descendência protestante, teve uma educação austera. Não foi um aluno brilhante, e preferia o bilhar as aulas. (WIKIPEDIA)
Kant afirmava que “todos nós trazemos formas e conceitos inatos para a experiência crua do mundo, os quais seriam de outra forma impossíveis de determinar” (WIKIPEDIA), esta sua concepção faz parte de sua filosofia que ficou conhecida como idealismo transcendental. Teve grande influência na produção intelectual do século XX. Kant trabalhou como professor por toda a sua vida.
Após contato com a obra de Hume, empírica, naturalista, cética, com classificações diversas, dependendo do crítico, objeto de trabalho anterior, e que refutava as teses de poderes causais inerentes as coisas, Kant se perturbou profundamente. Via a irrefutabilidade do argumento humeano mas não concordava com as suas conclusões. Kant desperta de seu sono dogmático. Escreve uma Dissertação e depois publica Critica a Razão Pura. O prussiano faz um grande esforço dentro das estruturas da lógica euclidiana e da física newtoniana (ZUBIRI) em toda a sua obra. Aproxima-se muito da visão inatista de Leibniz (PEREIRA) na dissertação, mas esta tendência não se mantém em sua crítica. Mesmo porque vê a questão do inatismo como periférica e que ocorre apenas para ilustrar algumas passagens do seu pensamento.
Kant produziu ainda a Critica a Razão Prática, Critica do Julgamento, A Fundamentação da Metafísica dos Costumes (obra de grande importância para compreender o posicionamento do autor frente a Moral), Metafísica dos costumes e ainda outros escritos sobre política e a aplicação prática da filosofia para a vida.
 
2 CRITICA DE KANT A HUME
A discussão no século XVII girava em torno do inatismo. A questão básica era se o conhecimento seria inato ou adquirido. Descartes, Leibniz e Locke são os expoentes desta época. O século XVIII vai propor uma nova abordagem da Teoria do Conhecimento. Haverá uma preocupação de como se processa o conhecimento bem como onde encontram-se os limites do conhecer. Hume e Kant vão apresentar suas teorias bastante distintas neste período.
Parece ser mais interessante a discordância que Kant faz a Hume principalmente no que se refere a forma como se produz o conhecimento. A teoria de Kant é complexa e extensa, e em alguns pontos encontra-se com o pensamento de Hume, em outros coloca-se em oposição diametral. Kant explicita esta percepção:
“O meu próprio trabalho, na Crítica da Razão Pura, foi ocasionado pelos pontos de vista céticos de Hume, mas prossegui muito além e discuti toda a problemática da razão teórica pura em seu sentido sintético, incluindo aquilo que é comumente chamado de Metafísica". (KANT Critica a Razão Pratica, p. 54, Critica a Razão Pura, B 792, 797 in CHAVES).

Para que possamos compreender a crítica de Kant a Hume, precisamos conhecer como os dois se posicionam no que se refere ao conhecimento.

2.1 Como Hume via o conhecimento?
Aqui está colocada, de maneira sintética, a forma como Hume apresenta seu ponto de vista sobre as percepções da mente humana, separadas em dois gêneros: impressões e idéias. A diferença entre as percepções e idéias são o grau de força e a vivacidade que impactam na mente. As imagens mais fortes e violentas são as impressões. As mais fracas são as idéias. Tanto as idéias como as impressões podem ser classificadas em complexas ou simples: se pode ser distinta em varias partes é complexa; se é indissolúvel: simples. Conforme PEREIRA:
“Há grande semelhança entre nossas impressões e idéias em todos os pontos, exceto em seus graus de força e vividez, de forma que as idéias pareçam ser os reflexos das impressões. É através das percepções de simples e complexas que poderemos limitar a conclusão da semelhança entre as impressões e as idéias. As idéias complexas não necessitam possuir impressões que lhes correspondam inteiramente, ou seja, posso possuir a idéia de um lugar conhecido com muros de ouro e pedras de rubi, utilizando assim duas idéias para formar uma só coisa; e nossas impressões complexas nunca são copiadas de maneira exata: mesmo que tenhamos visto uma cidade, somos incapazes de guardar todas as suas ruas e aspectos, nitidamente. Não há, portanto, uma regra universalmente verdadeira de que nossas impressões sejam cópias exatas das nossas idéias complexas.Quanto às percepções simples, Hume afirma que “a regra não comporta exceção, e que toda idéia simples tem uma impressão simples que se assemelha a ela; e toda impressão simples tem uma idéia correspondente” (HUME in PEREIRA)”

Dada esta tese, Hume crê que é a partir da experiência que se formam as idéias e o inverso é impossível. Neste ponto precisamos trazer o conceito de idéia em Hume:
Se tomarmos inato por “natural”, então, segundo o autor, todas as percepções da mente serão inatas ou naturais. Porém, se admitirmos os termos “inato” e “impressões” tais como definidos por ele, “todas as nossas percepções são inatas e nenhuma de nossas idéias o é” (HUME in PEREIRA).

2.2 Como Kant via o conhecimento?
Kant apresenta em sua dissertação a forma e os princípios do mundo sensível e inteligível, ali estão expostos diversos conceitos que serão apresentados posteriormente na sua primeira Critica. Segue alguns destes conceitos por PEREIRA:

Ele começa por apresentar os conceitos de simples e mundo, o primeiro sendo uma parte, o segundo um todo. Uma vez dadas as partes, torna-se necessário conceber a composição do todo por meio de uma noção abstrata do conhecimento. Em seguida, tratasse de elaborar essa noção geral, mediante a faculdade de conhecer sensitiva, como um certo problema da razão, ou seja, trata-se de representá-lo concretamente para si por meio de uma intuição distinta.
A representação é feita mediante o conceito de composição em geral, à medida que várias coisas estão contidas nele, ou seja, mediante as idéias universais do entendimento; a representação é fundada nas condições do tempo: somando-se sucessivamente uma parte a outra, o conceito de composto é primeiramente possível mediante a síntese.
Quanto a esta, Kant a apresenta por meio de duas definições: qualitativa e quantitativa. A primeira indica uma progressão da condição para o condicionado na série dos subordinados; a segunda é uma progressão da parte dada para o todo, através dos complementos daquela, na série dos coordenados.

Apresentados os conceitos de simples/todo e contínuo/infinito com a finalidade de ilustrar a profundidade do pensamento kantiano, temos ainda as formas como o contato com o conhecimento é possível. Kant crê que o conhecimento divino é um e o humano é outro, pois o conhecimento humano está estabelecido dentro dos limites de tempo e espaço. Aqui ele apresenta a diferença entre o que é irrepresentável e o que é ininteligível. Para o prussiano, o que é irrepresentável para o homem pode ser inteligível para um poder que exceda o homem. (PEREIRA).
Kant concede ao mundo uma forma essencial, pois somente isso explicaria o porquê de o mundo permanecer o mesmo sem ser corrompido pelos estados mutáveis, pois qualquer mudança suporia a identidade do sujeito, cujas determinações sucedem umas às outras. (PEREIRA)

Este ponto já é suficiente para que possamos perceber, ao menos um ponto da crítica de Kant a Hume. Mas avancemos mais um pouco para o conceito que Kant faz do tempo e do espaço:
“estas noções não são absolutamente racionais, nem são idéias objetivas de qualquer nexo, mas fenômenos [...] elas dão testemunho de algum princípio comum no nexo universal, mas não o explicam” (KANT, 1985, p. 39). (PEREIRA)
A idéia de tempo, segundo Kant, não nasce dos sentidos, mas é por eles suposta. As coisas que são dadas nos sentidos não poderiam ser representadas, senão mediante a idéia de tempo. A idéia de tempo é uma intuição pura, pois é concebida antes de toda a sensação. O conceito de tempo se funda numa lei interna da mente e não numa intuição inata, e, desse modo, só pelo poder dos sentidos se provoca aquele ato do espírito que coordena as suas sensações. (PEREIRA)

Também quanto ao espaço o prussiano se coloca da mesma forma que em relação ao tempo. Colocando o espaço como algo independente da experiência, subjetivo e ideal.
O espaço não é algo objetivo e real, nem substância nem acidente, nem relação; mas algo subjetivo e ideal, saído da natureza da mente por uma lei estável, à maneira de um esquema mediante o qual ela coordena para si absolutamente todas as coisas que são externamente sentidas (KANT, 1985, p. 64 in PEREIRA).
Com relação ao espaço, Kant afirma ainda que as coisas não poderiam aparecer ao espírito, a não ser “por intermédio de uma capacidade do espírito que coordena todas as sensações segundo uma lei estável inerente à sua natureza” (KANT, 1985, p.65 – grifo nosso), dada de modo originário à mente. (PEREIRA)

Para Kant, a aparência se transforma em experiência através da reflexão, usando o entendimento lógico. O entendimento tem um uso real e um uso lógico. O real tem inteligibilidade em mecanismos internos e inatos da alma. O Lógico está submetido a uma construção hierárquica, logo “conceitos intelectuais, dados pelo uso real do entendimento, são dados por sua própria natureza, não contendo forma alguma e nenhuma relação com o conhecimento sensitivo como tal.” (PEREIRA). Daí Kant concilia através da operação coordenadora da sensibilidade que requer “tanto a afecção externa (a impressão através do objeto dado) quanto a determinação transcendental (a afecção interna através da síntese categorial). O lado intelectual situa-se na índole sintético-originária da mente humana; já o sensível, na empírica do objeto que é “dado”. (PEREIRA)
Kant crê que o conhecimento comece com a experiência, embora ele desacredite que se origina na experiência. Daí o seu apriorismo: “uma espécie de conhecimento que independe da experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos”

 
CONCLUSÃO
Kant estabelece criticas a Hume principalmente por sua forma de posicionar-se ao conhecimento. Para o prussiano, não era possível que o conhecimento se originasse na experiência. Kant não descartava a importância do empírico para a formação do conhecimento, apenas não sustentava que o conhecimento tivesse sua origem apenas daí.
Kant desenvolveu aprofundados trabalhos procurando a estrutura em que se processa o conhecimento. Está claro em Kant uma necessidade de remeter o ser humano para uma explicação dogmática, onde existe um mundo posto e inalterável. Conseqüentemente é necessária a recorrência a uma divindade para que se possa justificar este posicionamento.
Hume, enquanto ateu, não podia recorrer a este tipo de explicação. Então procurou manter a discussão no nível empírico, escapando assim de explicações que estivessem fora do ser humano e de uma realidade pré existente.

 
BIBLIOGRAFIA

PEREIRA, Adriana. Hume e Kant a Respeito do Inato. Revista de Iniciação Cientifica da FFC, vol. 4, nº 3. 2004
CHAVES, Eduardo O. C. David Hume e a Questão Básica da Crítica a Razão Pura. Outubro/2005. Disponível em http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/hume2.htm
WIKIPEDIA, A enciclopédia livre. Emanuel Kant. Outubro/2005. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Kant,
ZUBIRI, Xavier. La crisis filosófica de la causalidad. Novembro/2005. Disponível em http://www.zubiri.org/outlines_syllabi/causality/lecture5.htm

Porto Alegre, 27 de Novembro de 2005

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