Jacqueline Russ - Pensamento Ético Contemporâneo (Resumo)

 

Artur Júnior dos Santos Lopes

Etimologicamente os termos ética (do grego costumes) e moral (do latim hábitos) remetem a idéia de costumes e hábitos, e modos de agir determinados pelo uso, portanto muito próximos. A diferença começa pela forma prática que os termos apresentam. A ética é mais teórica mais voltada a reflexão sobre os fundamentos do que seja "o bem", "o mal". Segundo Jacqueline Russ o papel da ética é desconstruir as regras de conduta moral, na busca de estruturas basilares mais profundas, e apartir daí construir-se. Já a moral é o conjunto de regras que se dão na prática, é o que ocorre nos relacionamentos humanos, é o objeto e pesquisa da ética.
Russ ainda assinala o surgimento de uma segmentação ética, o que no seu ver apresenta problemas pois a ética deveria ser universal. No decorrer de seu livro pretende um aprofundamento sobre estas novas visões que surgiram apartir da modernidade.

O vazio ético é o momento em que tudo o que se sabia, o que fundamentava a ética está posto em discussão, ou para maior exatidão, não existe. Sejam os princípios religiosos, seja tudo o que coloca fora do ser humano as respostas para as perguntas éticas. Daí surge a possibilidade de uma nova abordagem do conteúdo ético. Este vazio se dá por causa do desenvolvimento tecnológico, que faz com que os questionamentos se aprofundem e que respostas superficiais não consigam resolve-los. Não bastasse isso, ainda acomete-nos uma grande ausência de sentido. As coisas não fazem sentido. O sentido faliu, assim como o Zaratustra de Nietzsche anuncia a morte de Deus para o Sacerdote, assim também parece que o sentido morre, mas importante é sabermos que sentido é este de que falamos. O sentido que morre é o que foi fundado na era clássica, resgatado na renascença e fixado com o cartesianismo iluminista. Parece que agora cabe-nos a formulação de uma proposta para o sentido, que não se fixe em respostas, mas que dê ferramentas para exploração de um sentido que dê conta de nossa Hypermodernidade.

Jacqueline coloca alguns aspectos do individualismo na página quatorze do seu livro Pensamento Ético Contemporâneo. Evoca a conceituação do século XIX onde individualismo significava a não aceitação das regras do estado ou da igreja. O individualismo era uma vontade de não sujeitar-se ao que era externo. Nós, signatários do século XX herdamos grande parte desta inconformidade, e ela evoluiu. Esta passagem refere-se, segundo a autora, ao momento em que Nietzsche aponta como a completa projeção do indivíduo para dentro de si mesmo, não importando, portanto, nada que está para fora. Este princípio solepsista parece-me muito forte, e dá a idéia de uma esquizofrenia aguda de toda a sociedade. Prefiro crer que não é desta forma que a autora se coloca, mas sim que aponta para um momento onde o sujeito ganha uma dimensão muito especial (século XIX) e aos poucos este sujeito vai se descentrando e ai percebe a ineficácia dos conceitos herdados para dar conta do novo cenário. Precisamos então apresentar novas formas de traduzir a necessidade de nossa época, e procurar encaminhá-la da melhor forma possível, fornecendo subsídios para a formatação de uma nova humanidade.

A autora pretende colocar que o homem não é mais capaz de Ter o domínio da técnica, e que a mesma absorve o homem e o faz refém. Rio-me desta, no mínimo ingênua colocação. Quando o homem primitivo dominou as técnicas da produção do fogo, ou quando inventou a roda, ou a escrita, por mais que quisesse voltar atras, por mais medo que tivesse da novidade, isso não poderia ser mudado. Imagine se fosse possível desinventar algo. Desinventar a roda, esquecer de como dominar o fogo. Desfazer-se da escrita. Não bastasse isso, tratasse as invenções humanas como se sobre elas coubesse algum juízo moral. A faca é tão boa, quanto mais corte tiver. Já se a mão que a segura vai levá-la ao corte de uma alimento ao a morte de um semelhante, me parece ser esta a questão ética e moral a ser analisada. Novamente nos voltamos para o ser humano e percebemos que as chaves éticas e morais estão voltadas para ele, para como o ser utiliza as suas próprias invenções. Se para a cura de doenças ou para proporcionar holocaustos.
Ainda assim a leitura da situação por parte de Jacqueline me parece correta. O medo assombra a sociedade. Mas o medo não é fruto da técnica. É fruto das exigências do modelo econômico, e do próprio ser humano que se afasta da responsabilidade sobre o seu futuro. O niilismo o absorve completamente. O narcisismo lhe coloca em uma redoma. O ser apático, insensível é incapaz de cooperar. Espetáculo para os estudos da sociologia que pode perceber ai grandes problemas, quem sabe apontar algumas saídas?.
O vazio ontológico também parece vir daí. Pois que o ser torna-se apenas aparência pois que o exterior não tem uma real importância. E quando o outro perde a importância, eu também me desvalorizo. Mas daí a chegar ao vazio ontológico parece um exagerar, pois que me parece que vivemos um momento único na construção do super-homem. Momento em que o ser conhece a si mesmo, volta-se para si, creio que a reflexão será o próximo passo. O que vejo é o que quero? Sou eu o que desejo? Depois vejo a ruptura da inércia. O que posso fazer para conciliar o que quero, o que desejo e a realidade que está a minha volta? Sim, sou otimista. Mas tenho consciência de que está é apenas uma das diversas possibilidades que podem haver. Esta possibilidade é a que desejo. Desta forma tenho uma grande responsabilidade. Preciso ser honesto com os meus pensamentos. Necessito torná-los viáveis. E por fim traduzir a minha fala na minha prática cotidiana, pois me parece que este é o exercício máximo que precisamos fazer.

Porto Alegre, 25 de Setembro de 2005

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