Meu Café Amargo!

Artur Júnior dos Santos Lopes

 

 

 

 

Ontem após sair da aula, subindo a rua onde moro fiquei pensando sobre o encontro que tivemos: academicos, coordenação do curso e professor. Veio-me a cabeça o pensamento que foi repetido por muitas vezes, por alguns colegas e pelo o coordenador: “O Afeto”, “A Tecnologia do Afeto”, e nessa linha. Parecia haver um consenso sobre o que é bom. Não pude conter meu pensamento. Fui além ...

As pessoas, com as quais tenho o prazer de me relacionar, sabem que gosto de um café forte, sem açúcar. Muitas pessoas não gostam do amargo do café, pois não lhes agrada o sensivel paladar, não suportam tal sabor. Precisa um adoçamento para que o café lhes seja tragável. Não consigo resistir: Por que tomam café se não gostam do seu gosto? Precisam adoçar. Adoçam. Não apreciam o seu sabor. Não gostam. Mas tudo bem. Vivo em uma sociedade de tolerâncias. Compreendo os que gostam de açúcar, mesmo não partilhando do mesmo gosto. Compreendo os gays mesmo sendo hétero. Compreendo os religiosos, mesmo que seja grande, a distância com meu culto.

Ainda assim não parei de pensar: Se eu for à casa de algum dos debatedores, partidários da doçura: Será que tolerarão o meu gosto assim como eu tolero o deles? Ou se tolerarem, será que ainda assim não me discriminarão? Anti social. Prefere seu próprio caminho. Não pretende a redenção. Não pretende a unanimidade. Não pretende ser amado. Uma vida intensa lhe basta. Pretencioso, pretender ser amado pelo que é. Enfim, será que vão me obrigar a saborear um enauseante café doce?

Não será essa uma violência? Talvez muito maior do que ter um gosto, uma forma, um ponto de vista?

E o que diríamos da filosofia? Que procura desfocar? Questionar? Apresentar outras possibilidades? O que não tem a mesma forma não presta? Importa de quem vem e não o que vem? Vivemos ainda na escolástica onde as posições se sustentam pelas hierarquias, pelas instituições. Não importa se atende o meu desejo ou não, isso é supérfluo. Importa que quem diz esteja devidamente ungido do poder para tanto, ou pior seja regido pelo tu deves.

 Rio-me. Não penso assim. Penso que temos muito mais a oferecer e a exigir. Cada um tem uma capacidade muito grande e não é a formalização do conhecimento que faz a diferença. Não me importa de quem vem desde que venha algo de qualidade. Algo que valha a pena ser levado em conta. Algo que valha a pena ser pensado. Mas este é o meu pensamento. Não quero partidários. Não pretendo convencer quem quer que seja, apenas quero o direito de poder pensá-lo, poder expressá-lo. Não quero que concordem. Pode ser questionado. Pode ser aprofundado. Pode ser contrariado. Mas, merece respeito. Não por ser o meu pensamento. Mas por ser o pensamento de uma pessoa. Por ter algo que pensa fazendo uma reflexão, tão próximo de todos os outros. Ou será que um cego não pode refletir? Ou um surdo? Ou um retardado? Somos distintos, nem mais nem menos importântes. Somos.

Há um tênue distanciamento entre o consenso e o sectarismo. Há uma tênue distinção: Entre o bom e o mesquinho; entre o mau e o grandioso. Principalmente quando transparece a institucionalização: do que é certo, ou um padrão correto de proceder, o que menos fere, o que fere pouco, o que é adoçado. O que fere de forma bonitinha. Quem pode estabelecer um padrão para o comportamente humano?

Qual o problema em ser gáudio, direto, sincero?

Daqui a pouco proporemos um holocausto para os que ousam ter uma forma diferente.

 

Penso...

 

Porto Alegre, 11 de maio de 2006

Comments