Perspectivas da educação na visão de Moacir Gadotti


Artur Júnior dos Santos Lopes

INTRODUÇÃO

 

Aprendizagem é um processo em anel retroativo-recursivo que transgride a lógica clássica, 

em direção a um nível cada vez mais integrado ao todo. Esse conceito de aprendizagem não visa a acumulação de conhecimentos pelos alunos, mas pretende que estes dialoguem com os conhecimentos, reestruturando-se e retendo o que é significativo. Portanto, educar é fazer com que os jovens dialoguem com o c

onhecimento. Cuidar da autorreferencialidade através da multirreferencialidade. Cuidar da unidade através da diversidade. É um paradoxo? Certamente é um paradoxo. (SANTOS)

 

Preciso ser franco: Quando comecei a ler o educador Gadotti, quase tive um ataque de riso. O cara escrevendo, a primeira vista, é lastimável. Um verdadeiro fiasco. Talvez tenha lido assim em um primeiro momento por causa do ranço que tenho dos educadores. Mas, ainda assim, não desisti: continuei lendo. Afinal de contas: precisava produzir um trabalho para ser avaliado com uma nota e assim, adequar-me a uma exigência institucional.

Bueno, eis que me deparei com o Dr. Gadotti. E digo doutor Gadotti por que fez jus ao Dr. aposto ao seu nome. Aliás, sobrou. Tem muito mais café neste bule. Para alguns, o peso de um diploma é enorme, um bacharel ou licenciado, precisam rebolar para conseguir sustentar o seu título. Não é o caso do Dr. Moacir. Comecei a lê-lo com uma relutância e resistência impressionantes, como comentei anteriormente. A competência, deste distinto senhor, fez com que me rendesse, não ao seu discurso aprazível ou a sua retórica irretocável. Rendi-me a sustentação da argumentação de quem vive uma vida em prol não apenas da educação mas da melhoria da qualidade de vida do ser humano.

Segundo as preleções do professor, este trabalho não deveria tratar-se de uma síntese. Transgredi. Coloquei uma síntese. Não o fiz apenas para que ai estivesse, mas sim: para que pudesse ficar clara a forma como li o texto trabalhado, e assim colocar as razões com as quais sustento a minha crítica.

De antepasto coloquei a cópia de uma pequena biografia do Moacir. Claro, que os gulosos que preferirem, podem abstrair estas partes iniciais e ir direto ao prato principal que são a Análise Crítica e a Conclusão, fiquem a vontade.

Obrigado Zé! Parabéns Moacir!

 


1.      QUEM É MOACIR GADOTTI
 
1.1.           RÁPIDA BIOGRAFIA
Moacir Gadotti é licenciado em Pedagogia (1967) e em Filosofia (1971). Fez Mestrado em Filosofia da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP, 1973), Doutorado em Ciências da Educação na Universidade de Genebra (Suíça, 1977) e Livre Docência na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, 1986). Em 1991 prestou concurso para Professor Titular na Universidade de São Paulo. Foi professor de História e Filosofia da Educação em cursos de graduação e pós-graduação em Educação e Filosofia de diversas instituições, entre elas a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a Universidade Estadual de Campinas e a Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Desde 1988 é professor na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Foi assessor técnico da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (1983-1984) e Chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de São Paulo (1989-1990), na gestão de Paulo Freire. Atualmente é Prof. Titular da Universidade de São Paulo e diretor do Instituto Paulo Freire.

Possui um grande número de publicações em que desenvolve uma proposta educacional cujos eixos são a formação crítica do educador e a construção da Escola Cidadã, numa perspectiva dialética integradora da educação e orientada pelo paradigma da planetariedade.

1.2.           OBRAS
Entre os livros publicados destacam-se: A educação contra a educação (1981), Pensamento pedagógico brasileiro (1987), Convite à leitura de Paulo Freire (1988), Escola cidadã (1992), História das idéias pedagógicas (1993), Pedagogia da Práxis (1995), Paulo Freire: uma biobibliografia (1996), Perspectivas Atuais da Educação (2000) e Pedagogia da Terra (2000). Um legado de esperança (2001).


2.      MINHA LEITURA DO TEXTO
Aqui, neste ponto do texto, trago a minha percepção do que foi lido. Importantíssimo para que se possa compreender os pontos que me chamaram a atenção no escrito do Gadotti e como vou posicionar a minha critica sobre a visão do autor.

 

2.1.           AS PRELIMINARES
Já no resumo introdutório do texto do Moacir são apresenta alguns problemas da educação: "O conhecimento tem presença garantida em qualquer projeção que se faça do futuro. Por isso há um consenso de que o desenvolvimento de um país está condicionado à qualidade da sua educação."

Mas por que traçar um julgamento apressado de um pensamento? Vamos deixar que o Moacir nos demonstre o que faz com que ele chegue a esta conclusão.

Em junho de 2000 Gadotti está olhando para a globalização e para as duas últimas décadas do século XX. Está observando: como as grandes transformações ocorridas no período podem atuar sobre o mundo ocidental? E é claro: quais os seus reflexões para a educação?

Coloca que a perplexidade e a crise de paradigmas, presentes no final do século, não podem ser desculpara para o imobilismo, principalmente no que se refere às questões da educação.

Na frase H. G. Wells que está citada em seu texto e que dizia que "a História da Humanidade é cada vez mais a disputa de uma corrida entre a educação e a catástrofe", é possível perceber a forte influência do Emilio de Rousseau nesta frase.

Na análise do século XX, o filósofo Gadotti propõe algumas questões: “Venceu a barbárie, de novo? Qual o papel da educação neste novo contexto político? Qual é o papel da educação na era da informação? Que perspectivas podemos apontar para a educação nesse início do Terceiro Milênio? Para onde vamos?”. Estas questões não serão respondidas, mas de todo não ficarão sem respostas. O que pretende Gadotti é colocar pistas, muito bem fundamentadas e apoiadas por uma vivencia educacional invejável.

Eis o filólogo Gadotti a expressar-se no esforço de esclarecer o sentido que faz da utilização da palavra perspectiva:

Para iniciar, verifica-se o significado da palavra "perspectiva". A palavra "perspectiva" vem do latim tardio "perspectivus", que deriva de dois verbos: perspecto, que significa "olhar até o fim, examinar atentamente"; e perspicio, que significa "olhar através, ver bem, olhar atentamente, examinar com cuidado, reconhecer claramente" (Dicionário Escolar Latino-Português, de Ernesto Faria). A palavra "perspectiva" é rica de significações. Segundo o Dicionário de filosofia, do filósofo italiano Nicola Abbagnano, perspectiva seria "uma antecipação qualquer do futuro: projeto, esperança, ideal, ilusão, utopia. O termo exprime o mesmo conceito de possibilidade mas de um ponto de vista mais genérico e que menos compromete, dado que podem aparecer como perspectivas coisas que não têm suficiente consistência para serem possibilidades autênticas". Para o Dicionário Aurélio, muito conhecido entre nós, brasileiros, perspectiva é a "arte de representar os objetos sobre um plano tais como se apresentam à vista; pintura que representa paisagens e edifícios à distância; aspecto dos objetos vistos de uma certa distância; panorama; aparência, aspecto; aspecto sob o qual uma coisa se apresenta, ponto de vista; expectativa, esperança". Perspectiva significa ao mesmo tempo enfoque, quando se fala, por exemplo, em perspectiva política, e possibilidade, crença em acontecimentos considerados prováveis e bons. Falar em perspectivas é falar de esperança no futuro.

 

2.2.           EDUCAÇÃO TRADICIONAL
Em seu texto Gadotti traça uma rápida e condensada trajetória da educação e apresenta: “A educação tradicional e a nova têm em comum a concepção da educação como processo de desenvolvimento individual.” E ainda mais: “Todavia, o traço mais original da educação desse século é o deslocamento de enfoque do individual para o social, para o político e para o ideológico”. Destaca: “não há idade para se educar, de que a educação se estende pela vida e que ela não é neutra”.

 

2.3.           EDUCAÇÃO INTERNACIONALIZADA
Neste tópico apresenta-me algo que não conhecia, a Educação Internacionalizada sobre a chancelaria da Unesco, que não é nova, data de 1899 e foi fundada em Bruxelas. "No final do século XX, o fenômeno da globalização deu novo impulso à idéia de uma educação igual para todos, agora não como princípio de justiça social, mas apenas como parâmetro curricular comum."

 

2.4.           NOVAS TECNOLOGIAS
A difusão de conhecimento por meios de massa como previsto por McLuhan não ocorreram, segundo Gadotti, que crê ser possível a utilização ostensiva da Internet para a Educação a Distância para atingir este objetivo, percebe ainda que um grande problema para a difusão desta nova cultura de formação se deve a uma outra cultura: a da utilização do papel, a interferência burocrática do estado e também as ideologias mercadológicas.

Moacir destaca a importância da escola, das metodologias e das mídias não apenas para processos mnemônicos mas para a formação do pensamento crítico.

 

2.5.           PARADIGMAS HOLONÔMICOS
Apresentam-se os paradigmas Holonômicos. Caracterizam-se em especial pela proposta de uma nova relação entre produção e ser humano, principalmente representado pelo pensamento de Edgar Morin. Aqui o foco do saber não está institucionalizado mas voltado para dentro do próprio ser humano valorizando seus aspectos subjetivos, cotidianos e ocasionais. Destacam-se categorias como: “decisão, projeto, ruído, ambiguidade, finitude, escolha, síntese, vínculo e totalidade”.

Neste ponto Gadotti reúne algumas categorias e seus representantes. Ainda assim, é possível incluir outras, mas vamos nos deter na proposta do Moacir, pelo menos inicialmente. São as categorias: o "sentido do outro", a "curiosidade" (Paulo Freire), a "tolerância" (Karl Jaspers), a "estrutura de acolhida" (Paul Ricoeur), o "diálogo" (Martin Buber), a "autogestão" (Celestin Freinet, Michel Lobrot), a "desordem" (Edgar Morin), a "ação comunicativa", o "mundo vivido" (Jürgen Habermas), a "radicalidade" (Agnes Heller), a "empatia" (Carl Rogers), a "questão de gênero" (Moema Viezzer, Nelly Stromquist), o "cuidado" (Leonardo Boff), a "esperança" (Ernest Bloch), a "alegria" (Georges Snyders), a unidade do homem contra as "unidimensionalizações" (Herbert Marcuse), etc.

Aqui Gadotti apresenta novamente a filologia da palavra holonômico, detenhamo-nos:

Etimologicamente, holos, em grego, significa todo e os novos paradigmas procuram centrar-se na totalidade. Mais do que a ideologia, seria a utopia que teria essa força para resgatar a totalidade do real, totalidade perdida. Para os defensores desses novos paradigmas, os paradigmas clássicos - identificados no positivismo e no marxismo - seriam marcados pela ideologia e lidariam com categorias redutoras da totalidade. Ao contrário, os paradigmas holonômicos pretendem restaurar a totalidade do sujeito, valorizando a sua iniciativa e a sua criatividade, valorizando o micro, a complementaridade, a convergência e a complexidade. Para eles, os paradigmas clássicos sustentam o sonho milenarista de uma sociedade plena, sem arestas, em que nada perturbaria um consenso sem fricções. Ao aceitar como fundamento da educação uma antropologia que concebe o homem como um ser essencialmente contraditorial, os paradigmas holonômicos pretendem manter, sem pretender superar, todos os elementos da complexidade da vida.

 

O tema proposto por Gadotti não é de sua exclusividade. Temos Akiko que apresenta, junto do grupo que pretende o reencantamento do mundo e da educação abordagens bastante profundas desta temática bem como outras categorias que sejam: Princípio holográfico Elaborado Por David Bohm, Princípio da Transdisciplinaridade que tem sua origem no teorema de Gödel que, em 1931, propôs vários níveis de realidade e não somente um como entende o dogma da lógica clássica, Princípio da Complementaridade que pretende conceber o conhecimento desde a visão holográfica, através de um olhar transdisciplinar, leva ao entrelaçamento desses princípios com o Princípio da Complementaridade de Niels Bohr, Princípio da Incerteza que contrapondo as mensagens dualistas, reducionistas e deterministas tem-se, ao lado do Princípio da Complementaridade, o Princípio da Incerteza de Heisenberg.

 

2.6.           EDUCAÇÃO POPULAR
Destaque para o pensamento de Paulo Freire e em especial a categoria que é tida como fundamental: a conscientização e em um segundo momento mas não menos importante a organização. Pois que de nada adianta consciência sem poder de organização para operar as mudanças necessárias à satisfação das consciências.

São chaves para a compreensão da intencionalidade de Gadotti a percepção da educação pública popular - no espaço conquistado no interior do Estado na educação popular comunitária e na educação ambiental ou sustentável, predominantemente não-governamentais. Junto as práticas da educação popular ocorrem “mecanismos de democratização” que se baseiam nos valores de solidariedade e reciprocidade, buscando outras formas de produção e consumo. Pode-se perceber aqui a relação direta, que Gadotti estabelece, entre a educação popular e a economia popular.

 

2.7.           UNIVERSALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA E NOVAS MATRIZES TEÓRICAS
Aqui Gadotti faz a leitura do contexto atual, de forma muito cuidadosa, tentando equilibrar as premissas hegemônicas de mercado e uma nova proposta: O Projeto da Escola Cidadã. Procura se afastar das concepções de controle e produção para estabelecer outro paradigma que se coloca viável e sustentável. Nas suas palavras: “Ela visa formar o cidadão para controlar o mercado e o Estado, sendo, ao mesmo tempo, pública quanto ao seu destino - isto é, para todos - estatal quanto ao financiamento e democrática e comunitária quanto à sua gestão.” Que beleza! Mais, mais:

 

Seja qual for a perspectiva que a educação contemporânea tomar, uma educação voltada para o futuro será sempre uma educação contestadora, superadora dos limites impostos pelo Estado e pelo mercado, portanto, uma educação muito mais voltada para a transformação social do que para a transmissão cultural. Por isso, acredita-se que a pedagogia da práxis, como uma pedagogia transformadora, em suas várias manifestações, pode oferecer um referencial geral mais seguro do que as pedagogias centradas na transmissão cultural, neste momento de perplexidade.

 

2.8.           SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO E EDUCAÇÃO
Está estabelecida a relação entre a tecnologia e a multiplicação das informações. Facilitando o acesso, promovendo a comunhão do legado humano. Destaca ainda que nesta fase de distensão tecnológica, muitos locais ainda não conseguem acessar, cita Dowbor que compreende a necessidade de se trabalhar com o que se tem, mas ainda investir no que há por vir.

Alerta para que apenas a tecnologia não é capaz de dar conta de informar ou gerar conhecimento. É necessário que se tenha acesso e participação na formatação de conteúdos e conhecimento. Estão derrocadas as fronteiras físicas, mas ainda há muitas outras fronteiras para serem vencidas.

Alerta para que se tenha especial atenção para a utilização do conhecimento. Pois os saberes não podem servir de moeda de barganha. O conhecimento, e os meios de acesso precisam estar disponibilizados para a maior parte possível de pessoas de forma democrática e includente. Assim abre novas formas para a educação à distância, enquanto disponibilizadora do conhecimento.

Critica as regulamentações, os credenciamentos, autorizações, reconhecimentos, avaliações, etc. Brada: é preciso desburocratizar: “nem o Estado e nem o mercado, mas sim a sociedade e o sujeito aprendente” eis as autoridades dos processos de construção do conhecimento.

Propõe um novo papel para a escola dentro desta nova sociedade que será: “organizar um movimento global de renovação cultural, aproveitando-se de toda essa riqueza de informações.” Complementa-se ainda: “a escola deve servir de bússola para navegar nesse mar do conhecimento, superando a visão utilitarista de só oferecer informações ‘úteis’ para a competitividade, para obter resultados.” Ou seja: propõe uma nova escola. Não nos moldes atuais, mas uma escola que rompa com os paradigmas atuais em vista de muito mais. E neste novo contexto proposto há um papel de grande importância, para os professores, os poetas, os filósofos:

O que é ser professor hoje? Ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo, conviver; é ter consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores, assim como não se pode pensar num futuro sem poetas e filósofos. Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra, dos marketeiros, eles são os verdadeiros "amantes da sabedoria", os filósofos de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber (não o dado, a informação e o puro conhecimento), porque constroem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam, juntos, um mundo mais justo, mas produtivo e mais saudável para todos. Por isso eles são imprescindíveis.

 

2.9.           PARA PENSAR A EDUCAÇÃO DO FUTURO
Neste ponto está citado Jacques Delors (1998), coordenador do "Relatório para a Unesco da Comissão Internacional Sobre Educação para o Século XXI", no livro Educação: um tesouro a descobrir. Destaca que as novas exigências sociais forçam o ser humano a uma constante busca do conhecimento. Jacques sustenta sua teoria em quatro pilares que vou apenas citar: Aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver juntos, aprender a ser.

 

2.10.      APONTAMENTOS PARA O FUTURO
Aqui está proposta a discussão. São as categorias propostas: "contradição", "determinação", "reprodução", "mudança", "trabalho", "práxis", "necessidade", "possibilidade" e ainda Cidadania, Planetariedade, Sustentabilidade, Virtualidade, Globalização, Transdisciplinaridade, Dialogicidade e dialeticidade.

 


3.      ANÁLISE CRÍTICA
 

3.1.           SOBRE O PONTO 2.1: AS PRELIMINARES
As primeiras questões propostas partem do conceito dogmatizado de que “o conhecimento tem presença garantida” nas projeções para o futuro e relaciona o “desenvolvimento de um país” a qualidade da educação. É lastimável este aspecto, por que aqui há uma compreensão e uma idéia de educação que não está no senso comum. Uma má leitura deste questionamento pode nos fazer imaginar que a educação que temos hoje, ou as técnicas que hoje são utilizadas precisam apenas de um aperfeiçoamento para que venham a dar conta da transformação social necessária. Aqui semeio a minha dúvida: Podemos acreditar que é a educação que vai transformar a sociedade? Socorro-me com o princípio da Autopoiése de Humberto Maturana e Francisco Varela que estão citados por Akiko Santos. O ser e a sociedade precisam se fazer, se produzir, Gadotti vai colocar isso, mas em um momento bem mais adiantado de seu escrito.

As questões que Gadotti propõe não precisam, necessariamente de respostas, mas merecem, certamente, que nos debrucemos sobre elas como um excelente terreno para a proposição de atitudes, movimentos, que nos possibilitem uma ação que leve a desfocar a lógica mercadológica, consumista e excludente. Conclama a atividade de apoiar e valorizar o ser humano.

 

3.2.           DAS TECNOLOGIAS
Seria de grande ingenuidade fazer um juízo de valor de uma ferramenta, como um martelo, ou uma faca, ou até mesmo a própria internet por exemplo. Por quanto podemos perceber que os recursos tecnológicos não são bons ou maus, não são dicotômicos em si, mas se prestam a quaisquer utilizações, eis aqui uma visão classificada como por Higa como Instrumentalista. Precisamos verificar que sua aplicabilidade pode ter uma boa ou uma má intencionalidade, mas ainda assim não é possível julgar os resultados pois os mesmos apenas serão verificáveis a longo prazo. Bem, vamos nos ater então a intencionalidade. Enquanto a tecnologia continuar a ser usada como forma de aumentar o lucro, o rendimento e, colocar em segundo plano a democratização do acesso à informação, estamos com sérios problemas. Temos no IPA um grande exemplo deste equivoco. O EAD não está comprometido com a divulgação de informações e com a construção de conhecimento para um grande número de pessoas que não tem acesso ao conhecimento por vias formais e presenciais. Para chegar a esta conclusão basta percebermos a dificuldade do ambiente, o excesso de burocracia e a falta de infra-estrutura para suportar as diversas atividades. Tem como finalidade viabilizar a obtenção de uma meta: Chegar ao ponto de equilíbrio financeiro.

 

3.3.           SOBRE O ÍTEM 2.5 PARADIGMAS HOLONÔMICOS
Aqui Gadotti apresenta sua visão sobre a embrionária questão que mais adiante vai ser tratada por Santos ainda em caráter de desenvolvimento, mas que já estava sendo trabalhada desde a década de noventa do século passado, principalmente por Maturana, Varela e Morin. Gadotti chama de Paradigmas Holonômicos.

 

Eis o ponto fulcral. Aqui se encontra todo âmago dos posicionamentos que me aprazem, hoje, para nortear a perspectiva do futuro. O que é? Ei-la: uma abordagem voltada à totalidade do ser humano. O ser encarado como o ponto fundamental das políticas, das intenções, dos movimentos, das ações. O ser ativo, o ubermensh. O que está além de si mesmo e em constante construção. É utópico. É encantador. É um resgate ao que o ser precisa, é o apoio ao sonho, ao desejo. É a permissão que não é necessária pois é existencial, mas por óbvia se esconde aos olhos menos atentos. É a valorização destas categorias, que por muito tempo, se oprimiram, depreciaram, alienaram, em função da produção, da expropriação e do lucro.

 

 

3.4.           DO ITEM 2.8: UNIVERSALIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA E NOVAS MATRIZES TEÓRICAS
Esta parte do texto faz me lembrar a proposta francesa de uma “Escola Elitista para Todos” defendida por Michel Onfray e onde se tenham as melhores práticas, os melhores recursos e atendam a maior demanda possível. Mas não nos enganemos, pois uma universalização que não atenda as demandas emergências do ser humano visam apenas a sua domesticação cada vez mais severa e profunda. Como já denuncia Freud ao falar que a educação visa um enquadramento da criança em um modelo, que não corresponde a natureza da criança ou dos instintos humanos. Para ele executa-se o processo socializamento do ser humano violentando seus desejos inconscientes, como pode ser percebido nos trabalhos de Couto .

 

3.5.           DO ÍTEM 2.10: APONTAMENTOS PARA O FUTURO
Bravos Gadotti! Aqui com toda a experimentação adquirida ao longo do seu trabalho ao lado de pessoas como Paulo Freire, Ruben Alves e Boff, não conclui. Sucitou questões a serem trabalhadas. Não fechou, abriu. Propos um grande trabalho, o debate, a discussão e a prática. Algo que não se consegue isolado, sozinho, mas que precisa de pessoas motivadas, capacitadas e desejosas de um novo paradigma.

É... Algumas aulas não necessariamente precisam se basear em conceitos. Precisam demonstrar. Precisam de conceitos sim, mas não apenas analisados ou despejados como prova ou sustentação. Precisa-se de conceitos incorporados, vivenciados: Eis a práxis. Eis a diferença de alguém que sobra para sua titulação, que está além, que busca os seus sonhos, que é apaixonado, não pela causa, não pela idéia, mas pela vida. Está posta a diferença daqueles que apenas retoricamente colocam palavras que pela prática se demonstram vazias. Os discursos divergem da cotidaniedade, não estão engajados. Não apresentam a força e a pujança que pretendem na intelectualidade. Sobra o vazio. Novamente não é o caso do Gadotti. Vê o exemplo dele. Procura traduzir algo. Vê o que brada, não apenas o seu texto, mas a obra que se sustenta.

Idealista? Talvez! Romântico? Sim. E daí?

Resta-me ainda o desejo de um convite: Vamos nos reencantar? Vamos reencantar o mundo em que pretendemos viver? Vamos tornar a vida algo mais aprazível. Será a educação que vai fazer isso? Não sei. Será o ser humano? Não sei, mas, uma das grandes lições apresentadas por Gadotti é que não podemos ficar esperando as certezas para trabalhar, para buscar. Até mesmo o inatingível pode ser buscado. O limite está dentro das cabeças, o limite está na capacidade individual de cada um imaginar, e se lançar em sua busca.

 


CONCLUSÃO

 

É chegado o derradeiro momento de colocarmos alguma coisa sobre o que se pode ver. Concluir!?! Não, nem o Dr. Gadotti o fez. Não quero me isentar da responsabilidade. Nem me desculpar através da pequena trajetória acadêmica. Quero dizer que reforcei o pensamento: de que nem sempre o mais importante é ter respostas, ser concludente, coeso, preciso. Importa ser incansável na busca da realização de ideais, sonhos, desejos, amores, vida.

Gadotti apresenta a educação como ponto fulcral de seu texto pois que não se refere a educação que estamos vivenciando. Está falando de outra coisa muito mais sublime que ao tratar por educação demonstra: humildade e depois mau gosto. Humildade: pois equiparar as idéias que colocou com educação com certeza desvalorizam muito o seu esforço. Mau gosto: pois o pejo que carrega a palavra Educação dentro de uma visão deformadora dos seres humanos (Freud), que procura moldar dentro de uma lógica mercadológica de produção e consumo (Granmsi), instrumentalizada de uma maquinaria que não visa a aproximação mas o assemelhamento (normalização), só nisso já faz com que seu fedor seja insuportável.

Mas deixemos para trás o que se pretende passado, o que se deseja é a construção de uma nova sociedade, que precisa ser ativa, que pode contar com locais outros para comungar seus saberes, seus conhecimentos, seus anseios, seus medos. Resplandecer o que de humano há em nós, precisamos construir um modelo onde o que se veja seja o reflexo humano e não as correntes de um sistema.

Não está posta ai uma formula mágica que com uma balançar de varinha, uma oração ou sacrifício vá se estabelecer. Diante de tais desejos percebemos problemas gravíssimos que também precisam ser atacados, pois: Intelectualidade e fome não combinam. Desejos metafísicos e descanso muscular estão em posições muito opostas. Pensamento critico e torpor para o relaxamento psicológico de sustentar um peso maior do que a capacidade humana são contraditos.

Wielen Dank!

 


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Porto Alegre, 06 de Julho de 2006

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