As relações com a realidade

Artur Júnior dos Santos Lopes

 

Qual a possibilidade de interação com a realidade que temos?

 

O complexo caminho: tempo, espaço, necessidades, possibilidades e realidade.

A incapacidade de acompanharmos o objeto no tempo e no espaço denota a dificuldade de compreendermos as possibilidades, as necessidades e, por conseguinte: a realidade.

Me parece que: as interações com a realidade estão sujeitas principalmente a forma como percebemos e conceituamos a realidade, logo de maneira extremamente subjetiva. Ante isso, precisamos buscar conceitos que atendam nossa forma de pensar.

Quando percebemos a realidade como algo que está posto (forma dogmática – Bornheim), e que precisamos nos submeter a dada realidade, pois há a necessidade de enquadramento social: aceitação social. Neste modelo quem dita as regras é a “instituição-sociedade”. Quem assim pensa, não faz parte da sociedade, sente-se apenas como observador, sem poder realizar qualquer interação (Niilismo). Não existe espaço para o estranhamento. Precisa adequar-se, necessita, portanto, de reconhecimento, aceitação, como forma de gratificação. O modelo exposto faz com que a vida fique tal qual um barco sem leme, sem motor, a mercê das correntes sociais dentro da vida-rio. Bornheim apresenta de uma forma muito didática esta visão, a qual me aproprio para tentar explicitar um pouco melhor o que desejo dizer:

Dentro do processo de filosofar, Bornheim identifica um momento em que o dogmatismo está presente de uma forma muito tênue, pois já existe a percepção de que os eventos não estão fixados e que existe uma mobilidade efetiva. Ante a isso, apresenta a armadilha, que pode ser comparada a uma cena no teatro, onde mudam: os personagens, os atores, a trilha sonora, a iluminação, mas ainda assim, o cenário permanece o mesmo. O autor denuncia a abertura da percepção até certo ponto, ficando denota a necessidade de “ancoramentos” com estruturas que cerceiam a liberdade, (ação humana que evidencia a visão sartriana, pois que, corrobora com a visão do filósofo: demonstra a intenção de fugir da responsabilidade que a condenação à liberdade (Sartre) estabelece).

Em contrapartida, podemos oferecer uma outra forma de relação com a realidade, se percebemos que as regras sociais se estabelecem através da negociação e das habilidades de cada um (Tim), então existe uma possibilidade de mudança dos padrões sociais, bem como dos costumes (cultura-moral) e também fica possível a construção de valores sociais melhor adequados as necessidades que são percebidas no decurso da vida.

De que alterações da realidade estamos falando? Percebemos como realidade, por exemplo, a relação do mercado de produção com o ser humano. A exigência de submissão aos padrões adotados pelo mercado para a aceitação social. Mais praticamente: a pessoa vale o quanto tem, o quanto possui, e sobre isso é valorada. O ter é a forma mais imediata de perceber o que uma pessoa vale. Assim percebemos a teatralidade dos relacionamentos, a exacerbação da forma física, o culto a figura e a aparência, a desconexão dos estados psíquicos e as suas representações.

Aqui não se estabelece qualquer juízo de valor. Apenas se está usando um exemplo, particularmente para min, seria interessante ser demovido. Mesmo reconhecendo a importância das relações de Mercado/Consumo/Produção, creio que o equilíbrio entre a pessoa humana e estes mercados fiquem prejudicados, pois que, as expressões de valor estão apoiadas nas relações de consumo.

Ante esta leitura da realidade, que pode ser correta ou não, mas enquanto exercício, é muito interessante, pensemos: é possível alterar esta realidade? Criar uma relação Mercado/Consumo/Produção/Ser Humano mais equilibrada, onde o valor ficasse voltado para o ser, e não tanto para o ter? Que pelo menos pudesse ficar equilibrada esta relação?

Para tentar compreender esta questão proponho a figura que segue abaixo, o quadro de reconhecimento das realidades:

 
(Ver figura1, clique com o botão direito sobre a figura e selecione exibir imagem).

 

Neste quadro podemos perceber a linha de tempo seccionada por uma linha de possibilidades. As possibilidades ficam suspensas, e a necessidade que aproxima as possibilidades a realidade. O local de encontro destas linhas chamo de Zona de Necessidade. Em nosso exercício é importante perceber que a realidade é algo subjetivo que depende do posicionamento do observador e é uma experiência particular do observador.

Aqui cabe ressaltar que as possibilidades existem e o que vai fazer com que elas se realizem é a proximidade com a linha do tempo. Logo o leitor pode concluir:

A linha do tempo não pode ser manipulada com facilidade com a tecnologia que dispomos atualmente (tendo em conta a física atual);

As necessidades podem ser criadas a qualquer momento (exemplo: marketing – arte de gerar necessidades supérfluas);

As possibilidades podem se tornar mais ou menos necessárias de acordo com os movimentos e interações do observador (por exemplo: Patch Adams – as reações podem ser conduzidas);

Assim posso depreender que temos uma grande capacidade de alteração da realidade, mas para que isso ocorra há uma necessidade grande de disciplina, posicionamento, responsabilidade, planejamento e ação.

Para realizar as alterações das relações de consumo, primeiro é necessário estabelecer o valor do ser humano na sua mais tenra idade. Mas isso seria muito doutrinário, então antes deveria-se desenvolver um senso crítico adogmatico. Aumentar a capacidade de reflexão, e as formas de valoração social.

 

 

 

Porto Alegre, 26 de fevereiro de 2008.

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