Filosofia Latinoamericana - Enrique Dussel

Artur Júnior dos Santos Lopes
Rejane Farias

INTRODUÇÃO


Filosofia latino-americana. Do que estamos falando? O que é suficiente dizermos para que saibamos que falamos da filosofia específica de um local? Roberto Gomes se aventura em uma resposta citando Platão como, não apenas, um filósofo, mas um filósofo que está inscrito em um tempo e um local.


Gomes não sistematiza uma filosofia latina. Propõe primeiro que a sociedade assuma-se enquanto capaz de sustentar quem é. Questiona. Incita. Valoriza. Mas para que ocorra a valorização, primeiro aponta a necessidade de um desnudar-se. Precisa que se veja, que se reconheça, que se identifique consigo mesmo. Assim sistematiza, mas não pretende um formalismo desnecessário. Não entende que a formalização seja algo tipicamente latino americano ou brasileiro. Não vê na formalização o sustentáculo para as idéias, o mesmo não ocorre com as instituições.


Mais além vão Leopoldo Zea, Juarez Sofiste, Octavio Vaz, Carlos Fuentes, Salazar Bondy e o próprio Enrique Dussel. Estes propõem um sistema filosófico. Cada um a sua maneira. Dussel sistematiza, define e formula categorias com base em uma práxis latino-americana.


As Categorias Dusselianas estão estabelecidas de maneira crítica sobre todo o conteúdo absorvido da filosofia greco-européia. Não se estabelece apenas sobre um reproduzir pensamentos, mas esquadrinhar e fundamentar as próprias bases do pensamento latino-americano, baseado na vivência cotidiana e assim rompendo com paradigmas formais e pré-estabelecidos.


Não que a fundamentação de um pensamento vá lhe dar valia, pois podemos perceber muitos pensamentos bem embasados de um fedor extremo, um mero exercício lógico, mas pouco reflexivo; outros carecem de embasamento mas tem um substrato muito aprazível, pois refletem, criticam, eis suas principais ocupações.


Desta maneira deixamos estes rococós e vamos para o prato principal: As Categorias Dusselianas. Antes, porem, teremos um antepasto que visa posicionar Dussel no tempo e no espaço. Depois: a sobremesa. Vamos descrever como as categorias dusselianas são absorvidas e transbordam em categorias latino-americanas.


Não pretendemos que esta obra seja a síntese de um trabalho de anos de Dussel e ao qual estamos tendo contato agora. Pretendemos apenas trazer algumas facetas de seu pensamento, que está longe de totalizar sua obra, mesmo por que não é essa nossa intensão.


Durante a apresentação dos pensamentos de Dussel nos reservamos a descrevê-lo. Não fizemos um posicionamento crítico pois julgamos que esta iniciativa atrapalharia a abordagem e a compreensão do autor. A crítica ficará para a Síntese e Conclusão deste trabalho.


Dante grazie!

 

 

 

 

1.      ONDE ESTÁ DUSSEL (NO TEMPO E NO ESPAÇO)?

Neste ponto pretendemos trazer um pequeno posicionamento Enrique Dussel no que se refere ao seu tempo. Em anexo consta uma biografia mais completa.


Enrique Domingo Dussel Ambrosini nasceu em 24 de dezembro de 1934 em La Paz, Mendoza, Argentina. Faz licenciatura em filosofia na Universidad Nacional de Cuyo em Mendoza. Se doutora em Madrid na Universidad Central Complutense. Os temas escolhidos nas suas dissertações referem-se ao bem comum.         Com Noam Chomsky na Loyola University, 1994


Paul Gauthier, sacerdote francês, foi o responsável por colocar Dussel em contato com o pobre e o oprimido. Este é o ponto onde se desenvolverá a filosofia de Dussel de forma mais profunda.


Doutora-se ainda em Teologia e História.


Data do início da década de setenta as primeiras formulações da filosofia da libertação, com marcantes influencias de Hegel, Husserl, Heidegger e fenomenologia.


Credita a obra de Emmanuel Levinas, em especial Totalité et infini, o despertar do sonho ontológico. Em meados da década de setenta asila-se no México dada o endurecimento da ditadura militar que vigora na Argentina.

 

 

2.      CATEGORIAS DUSSELIANAS

Aqui descrevemos como Enrique Dussel categoriza algumas expressões que serão incorporadas na sua filosofia da libertação. Dussel deseja que suas categorias norteiem o pensamento latino-americano emprestando-lhe autenticidade, genuinidade e originalidade. Aparecerá também um paralelo com os pensamentos de Leopoldo Zea e Salazar Bondy.


As categorias utilizadas por Dussel são Libertação, Totalidade, Proximidade, Exterioridade e Alienação. Estas categorias não são novas, vai resgatá-las dentro da cultura judaico-cristã européia e ainda pegar algumas emprestadas com Emanuel Levinas. Os mais críticos perguntam: Tá mas e ai? Cadê as categorias dusselianas? Resta-me pedir um pouco de confiança. Aguardem a exposição das abordagens que Dussel fará destas categorias e então perceberemos o que as tornam dusselianas. Posso adiantar que a chave para esta compreensão está em atentarmos para a abordagem que Dussel vai fazer de cada um de seus pontos. O pobre, o oprimido tem destaque enquanto ponto focal, na verdade, ponto central de seus pressupostos.

 

 


2.1.           PROXIMIDADE

Para Dussel o ontológico mundo em que vivemos basea-se na compreensão das coisas como são verificadas. Um cogito. Dominadas, controladas, vistas, compreendidas, rotuladas e encaixotadas. Pronto! Está feito!


Proximidade, para Dussel, está muito além disso. É deixar a proxemia, que para o autor é aproximar-se das coisas. Ir além da aproximação. Busca a aproximação primeira. O Face-a-face da amamentação, o boca-a-boca do beijo, o corpo-a-corpo do sexo e assim por diante. Dussel vê aí um ato anárquico de “aproximar-se antes de toda a aproximação”.


Para o autor a proximidade apresenta dimensões que são:


a)     Originária: que se processa no nascimento, o meu primeiro contato com o outro, no caso com a outra, a que me pari e que me amamenta, nasci de outro, de alguém, não de algo;


b)     Histórica: o ser existe dentro do tempo espaço. Aí se dá a proximidade histórica. A história também amamenta, acompanha o desenvolvimento e crescimento do filho. Eis o exemplo para esta proximidade histórica;


c)      Sincrônica-anacrônica: a anacronia fica a passar o tempo a espera pela proximidade passada, um revew, um reencontrar o passado, um saudosismo;


d)     Escatológica-arqueológica: a proximidade escatológica é a “utopia que nos deixa mantém em suspenso”, está além de toda aspiração, no infinito. Não mede esforço.


A proximidade em suma não é totalizante. Não busca conhecer o outro e qualifica-lo ou classifica-lo. Quer mais. Quer experienciar, quer viver com, em, junto. Trago algo para pensarmos: Proximidade é festa, não da opressão, mas da libertação!


2.2.           TOTALIDADE

Aqui Dussel vai nos apresentar a totalidade fundamental e a totalidade correspondente, o nível dos entes e a inteligência interpretativa, o nível da totalidade ontológica e a inteligência dialética.


A totalidade fundamental está no momento em que vejo o mundo como “limite dentro do qual todo o ente encontra seu sentido”. Já a totalidade correspondente é a razão dialética. Para Dussel o cosmos é a totalidade fundamental indepentemente do conhecimento humano. Já o mundo é uma totalidade no tempo e no espaço é uma retração do passado. Logo o mundo predetermina o passado para projetar o futuro.


Aqui Dussel escava em busca das raízes da submissão dos oprimidos. Vê no processo que se inicia nas partes e se dirige ao todo ontológico e o que parte do todo para as partes do sistema apodítico, demonstrativo, científico.


O autor denuncia que apenas podemos compreender o que é passado. O que está classificado, logo o que é. Não compreendemos o que está em movimento. Para Dussel a proposta para sobrepor um movimento dialético totalizante é a analética que é simplesmente a passagem ao justo crescimento da totalidade, desde o outro e para servi-lo criativamente.

 

 


2.3.           EXTERIORIDADE

Esta categoria é a mais importante para a filosofia da libertação em Dussel, segundo ele mesmo. Neste ponto clama pelo reconhecimento do outro como alguém fora de mim, mas alguém não coisificado. Não é algo é alguém. É um rosto que está fora de mim. Sou eu mas eu em outro.


O outro é alguém que nos interpreta com liberdade. Remete-nos que há realidade além de mim assim como há cosmos além do mundo. O outro transcende as às determinações e os condicionamentos da totalidade.


Dussel denuncia que o outro enquanto pobre fica a margem do sistema que o oprime e é visto como negatividade. Um subproduto. A lembrança de que ele sente fome incomoda. Não quero reconhece-lo como parte do meu sistema totalizante que pretendo perfeito. Neste sistema totalizante a alteridade, a liberdade dos outros tornam-se coisas.


Propõe então Dussel que o fato real humano pelo qual todo o homem, todo grupo no povo se situa além do horizonte da totalidade é chamado analética e é a chave para que seja modificada a forma como o mundo se vê.


Apóia agora a visão sobre aquele que é pobre, que é oprimido, que está fora do sistema, que está a margem da sociedade. Valida seu ponto de vista através da alteridade humana. Este desdobramento crítico supera o método dialético negativo.


O momento analético está fundamentado na alteridade do outro e sua capacidade de enxergar e validar o negar o sistema em que está inserido ou à margem.


O direito absoluto por ser livre está fundamentado na exterioridade. É sagrado. O humano se justifica na sua própria condição humana.


Fora disso, o que não sou eu, o que não está conforme a norma está fora. É bárbaro. Passível de destruição, expropriação.

 

 


2.4.           ALIENAÇÃO

A alienação em Dussel lembra-nos o fetichismo. Onde o outro é ou deixa de ser não em função de sê-lo mas em função de uma ideologia, no caso de um sistema que tenha domínio. Assim surgem os heróis que destroem os monstros. Acabam com o outro. Com o que há de sagrado. Com a possibilidade de ser distinto por perceber uma ameaça a sua condição totalizante.


Dussel propõe a apreciação dos termos diferente e distinto. Dis - fere, palavra latina onde dis divide, nega e fere arranca a força com violência. Já distinto tem dis e tinto. Onde dis divide, nega e tiguere pinta, põem tintura.


Logo para Dussel alienação é o momento em que o outro é incorporado, massificado, coisificado dentro de uma totalidade determinante, perdendo assim suas características radicais.

 

 


2.5.           LIBERTAÇÃO

Para Dussel é necessária a viragem metafísica do ontológico para o transontológico. Aceitar a revisão ética do outro como outro. Dussel coloca o seu fetichismo como divinizar algo que não tem nada de divino.


O herói dusseliano é o anti-herói do sistema. Pois o herói dusseliano é o que se rebela contra o sistema, corrompe a juventude é o profeta do ódio e do caos. É o princípio da destruição da ordem vigente. É aniquilação. Desconstroi, há muito de verdade nisso, mas sua força herculana é para que se possibilite a construção de algo novo.


Libertação para Dussel é a transposição dos horizontes do mundo. É ir além. Buscar o que não estão posto. Tem duplo momento: o de deixar a prisão e é a afirmação da história anterior e posterior a prisão.


Existem exigências para que se consiga desalienar-se e jogar-se de foram a denuncia a totalidade do sistema que vai deixar a pessoa novamente em liberdade. A exigência é que o olhar embassado da coisa que trabalha no sistema se torne um olhar interpelante. Questionador. Inquietante.


Daí a expectativa da construção de uma nova ordem social, mais justa. O ethos para o herói dusseliano é a comiseração, estar com o outro.

 

 

 

 

3.      CATEGORIAS DA FILOSOFIA LATINO-AMERICANA?

Neste ponto o autor apresenta as posições do Mexicano Leopoldo Zea e do Peruano Salazar Bondy junto das categorias definidas anteriormente por Enrique Dussel. É possível perceber uma gradação de percepções sobre o tema e posicionamentos que vão desde o discordante até o de grande proximidade.


Salazar Bondy sustente a impossibilidade de haver uma filosofia latino americana autêntica e original. Coloca que existe um pensamento “inautêntico e imitativo no fundamental”. E diz mais: “se em lugar de produzir suas próprias categorias interpretativas uma comunidade adota idéias e valores alheios se resulta impossível para ela dar-lhes vida nova e potenciá-los como fonte de projetos adequados à sua salvação”. “Este pensamento haverá de por de lado, desde o princípio toda a ilusão mascaradora e, sem temer ao exercício mais frio e técnico do pensar, submergir-se na substância histórica de nossa comunidade para buscar nela o sustento dos valores e categorias que expressa positivamente e revelem o mundo.”


Bondy não prega uma teorização distante da prática, mas pergunta-se pela profundidade. Neste ponto está claro que tipo de profundidade se pretende dar ao pensamento da América Latina. Mas será esta a discussão fundamental? Não estaremos envolvidos com o cerne inatingível e deixando de vislumbra as possibilidades que temos?


Propõe então Salazar que não apenas comecemos a desenvolver o pensamento da América Latina através de sua parte prática, mas que se concilie com a teoria e as categorizações necessárias.


Já Leopoldo Zea tem um posicionamento muito distinto dos que anteriormente foram mencionados. Para Zea o que se precisa é filosofar, não mais que isso.


Para Zea o pensamento desenvolvido na América Latina não deve em nada aos tantos outros desenvolvidos em torno do mundo. É um pensamento distinto. O que falta segundo Zea e a valorização deste e a sua prática.


Zea questiona: Filosofar rigoroso para que? Para incorporasse ao corpo técnico da grande maquinaria técnica do mundo ocidentar?


O filosofar latino-americano tem se caracterizado pelo enfoque de problemas concretos, que não se reduzem a lógicas e metodologias. Não está comprometida em ser séria mas de levar a sério as questões que se propõem. O filósofos simplesmente filosofam.


Filosofar simplesmente para filosofar, para resolver os problemas que nos cercam e absorvem.


Após isso se retoma as categorias Dusselianas apresentadas e os posicionamentos dos filósofos anteriormente citados. Onde o autor conclui semelhanças tanto com o sistema proposto por Bondy no que se refere a profundidade da busca para sintetizar as suas categorias, mas que não são autenticas de todo pois vai busca-las em outros sistemas. Ainda reserva-se uma armadilha que seria imaginar que Dussel uma vez que cria sua filosofia sobre bases de outros estaria novamente alienando seu pensamento. A esta pergunta o autor responde que não pois a preocupação inicial de Dussel e criar um pensamento voltado para os seus problemas desta forma valorando a própria identidade.


Dussel deseja realmente criar um pensamento original e autentico. Está preocupado exclusivamente com o filosofar, assim se encaixa também nos pressupostos de Zea. A superação do modelo dialético pelo momento analético fica a clara a sua tentativa de transcendência do que está posto pela tradição européia.

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